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Módulo 2 | Aula 2

letramento racial para trabalhadores do sus

Tópico 2

Práticas de saúde antirracistas: definições e ferramentas

É comum que, forma equivocada, como mera coincidência e/ou esforço individual, a maioria das pessoas autodeclaradas brancas ou consideradas brancas pela sociedade tenham mais acesso a consultas, a exames, a atividades físicas diversificadas, a passeios, viagens, acesso a transporte individual para se deslocar em qualquer espaço da cidade, teatro, cinemas, pois essas pessoas são lidas com imagem de confiável, símbolo de beleza e inteligência, entre outros olhares majoritariamente positivos.

Assim, de modo geral, pessoas brancas nascem, crescem, envelhecem e morrem em condições mais dignas do que pessoas negras. E identificar isso acaba por nos dar mais nitidez sobre como o racismo opera para manter essas fronteiras intactas, organizando por raça e renda os territórios e condições de moradia e o acesso a bens e serviços.

Isso ajuda a perceber por que quando caminhamos nos becos e vielas das comunidades, favelas e ocupações nos centros urbanos, realizando visitas domiciliares, ou no Consultório na Rua, ou nos NASF/E-Multi, ou nas Equipes de Atenção Básica Prisional, ou nas Comunidades Quilombolas e Ribeirinhas mais longínquas, com dificuldade de transporte até mesmo para realizar um simples exame de Papanicolau, a maioria dessas pessoas são pretas e pardas. 

São pessoas que acumulam dificuldades de acesso a consultas, exames, escuta qualificada e resolutividade, porque são vistas como “a carne mais barata do mercado”, pensadas pelas mentes racistas como se, “na falha”, pudessem ser substituídas tal qual uma peça de máquina que dá defeito, e ainda desempenhando aqueles trabalhos pesados e precarizados, principalmente por mulheres negras, que ninguém quer fazer mas que todos precisam e se beneficiam em utilizar.

Fonte: Iwaria.

Fonte: Iwaria.

Assim, quando pensar hipertensão e diabetes como prevalentes entre pessoas negras, para além das informações percentuais, devemos pensar sobre:

Tipo de trabalho, direitos a férias remuneradas, licenças maternidades, creches;

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Tempo qualitativo de lazer, espaços urbanos adequados para circulação e práticas de atividades ao ar livre, participação na vida comunitária;

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Acesso a alimentação de qualidade, exercício de suas crenças e espiritualidades etc.;

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Indicadores para aferir o nível de saúde daquele grupo conforme sua raça/cor, desmontando assim “as coincidências”, as naturalizações e as simplificações.

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Mas, uma vez que alcancemos consensualmente esse complexo entendimento, também já sabemos que caminhar sozinhos é insuficiente para enfrentar essa questão, como um(a) profissional dedicado(a), como uma equipe engajada, ou como um(a) gestor(a) comprometido(a). É preciso definir responsabilidades e parcerias:

  • Responsabilidades: técnicas, legais e políticas./p>

  • Parcerias: democráticas com o Conselho local, municipal e estadual de Saúde; e com os movimentos negros e quilombolas e suas diversificadas organizações que lutam contra o racismo, seja pela via cultural, pela via religiosa, pela via da música, poesia, ações que já existem nos territórios e quase sempre são desconhecidas para nós. 

Assim, considerando esse combo de responsabilidades/parcerias, façamos o exercício de nos indagar:

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Sendo importante o controle da hipertensão e diabetes, ou mesmo o pré-natal por meio das consultas, é importante ou não que a USF funcione fora do horário comercial de trabalho, avançando para o período noturno, já que muitas vezes homens e mulheres negras não conseguem acessar diuturnamente, pelas suas exaustivas e precarizadas condições de trabalho e renda?

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Seria ou não importante que crianças e jovens negros tivessem acesso a grupos culturais que resgatassem com a arte outras narrativas de “ser negro” que não aquela versão negativa que costuma ser veiculada?

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Seria ou não importante que as pessoas, principalmente de comunidades quilombolas, pudessem exercer suas crenças e religiosidades de matriz africana sem ter que esconder do profissional suas práticas de cuidado por serem invalidadas por estes ou tratadas como “folclore”, sem integrar efetivamente às ações profissionais?

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Seria ou não importante que pessoas negras fossem escutadas com qualidade por qualquer profissional, sem o preconceito de  “não adianta explicar porque não entenderão nada” e “só fazem atrasar a agenda de atendimentos”?

Veja como as demandas são diversificadas e, sendo assim, a mobilização de atores e meios para fazer acontecer também será diversificada.

Quais protocolos, insumos, equipamentos, tecnologias de comunicação, quantidade e qualificação de pessoal, espaço físico adequado, transporte etc. será necessário?

O que já temos disponível de forma suficiente e o que teremos de ir atrás?

Quanto de dinheiro será preciso investir para essas ações acontecerem?

Essas são algumas das muitas perguntas que cabem dentro da equipe, da gestão da unidade, da gestão regional/distrital, da gestão municipal, estadual e nacional.