Papel dos trabalhadores(as) da saúde do sistema prisional no enfrentamento do estigma e da discriminação
A política nacional de atenção integral às pessoas privadas de liberdade no sistema prisional (PNAISP) prevê a implantação das equipes de saúde no sistema prisional que incluem médico, enfermeiro, odontólogo, técnicos de enfermagem e apoio de psicólogos e assistentes sociais da equipe ou de apoio matricial.
A implementação da PNAISP tem sido um desafio, mas os(as) trabalhadores(as) da saúde podem contribuir para uma atenção mais inclusiva, humanizada, interseccional e não discriminatória em relação ao cuidado em saúde, no geral e às IST, HIV/Aids, hepatites virais, micoses endêmicas, tuberculose e hanseníase, em particular. A seguir, apontaremos algumas sugestões nessa direção.
Nas situações de entrada com diagnóstico de tuberculose, COVID-19, suspeita de varíola dos macacos (Monkeypox) e outras doenças transmissíveis por gotículas, é importante garantir que o caso suspeito ou confirmado fique isolado em cela privativa até acabar o período de transmissão. Mesmo após este período, a possibilidade de não aceitação pelos outros encarcerados pode ser grande, e às vezes a convivência pode ser muito ruim. Veja o que o Sandro (nome fictício) comenta:
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Fonte: Freepik
Pra nós é muito difícil, ninguém quer dividir as coisas, a comida, acha que se eu pegar a garrafa ou copo de água vai passar a tuberculose. Já falei que estou tratando direitinho e não tem mais risco, mas eles não entendem.
A discriminação também pode ocorrer quando a PPL necessita ir a um centro de especialidades médicas, laboratório, clínica de exames fora da UP ou mesmo a uma internação num hospital geral. Nos casos de urgência médica nas UP são solicitados SAMU ou atendimento pelo serviço de resgate do Corpo de Bombeiros. A saída deve ser acompanhada por escolta da polícia militar ou penitenciária, conforme normativa da administração penitenciária em cada unidade da federação. Quando a PPL chega numa unidade de saúde com escolta armada e algemada, frequentemente há um constrangimento tanto dos(as) trabalhadores(as) de saúde que o recebem, quanto dos(as) outros(as) usuários(as) que aguardam atendimento e principalmente da PPL. O medo e insegurança, os olhares, as falas ou o silêncio podem ser manifestações do estigma e discriminação em relação às PPL.
Trabalhadores(as) da saúde, administração e segurança das UP precisam atuar em sintonia para que as ações de prevenção, vigilância e assistência aconteçam. Se por parte de uns há um envolvimento crítico e reflexivo, por parte de outros há uma percepção de que estas ações são privilégios (e não direito) dos PPL dentro das UP.
Por isso, há necessidade de sensibilização de gestores(as) da administração penitenciária e das próprias equipes de atenção à saúde para viabilizar as atividades necessárias respeitando os procedimentos de segurança institucional.
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