Unidade 2

Do Período Getulista à Ditadura Civil Militar​

Aula 3

O cuidado aos doentes entre a saúde
pública e a previdência

Como vimos nas aulas anteriores, a transformação da saúde em pauta de interesse estatal esteve diretamente ligada ao combate às doenças transmissíveis nas grandes cidades e nos sertões. Essa característica foi marcante tanto na Primeira República quanto durante a Era Vargas. Por outro lado, as doenças crônico-degenerativas ficaram em segundo plano e não mereceram, com raras exceções, maiores cuidados por parte das instituições governamentais.

Entretanto, cabe ressaltar que, embora não tenha a princípio atraído a atenção do Estado, esse grupo de doenças foi incorporado, a partir da segunda década do século XX, às reivindicações dos trabalhadores em prol da instituição de mecanismos de seguridade social, como aposentadorias e pensões.

Desenho da planta do Hospital do I.A.P.E do Rio de Janeiro, de 1943.
Fonte: Acervo do CPDOC/FGV

Esse foi o caso das doenças cardíacas, que passaram a ser objeto de cuidado nos institutos da previdência social, mobilizando, inclusive, a organização de uma especialidade: a cardiologia, para cuidar dos doentes.

Saiba Mais
Participantes do I Curso de Cardiologia do Hospital Municipal de São Paulo, 1941.
Fonte: LUNA, Rafael Leite. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Cinquenta Anos de História. Belo Horizonte: SBC, 1993, p. 7.

Na década de 1930, no contexto do Estado Novo de Vargas, as doenças cardíacas assumiram maior importância na agenda da saúde, principalmente a partir das transformações promovidas pelo governo no mundo do trabalho, comentadas na aula anterior.

Um ponto central nesse processo foi a veiculação de uma ideologia política segundo a qual a modernização do país dependia do surgimento de um “novo trabalhador brasileiro”, forte, saudável e produtivo. As doenças do coração emergiram na agenda da saúde e do Estado justamente porque foram vistas como problemas para os trabalhadores.

Eram enfermidades que, afetando o coração do trabalhador, impediam-no de cumprir as funções que dele esperavam o Estado e a sociedade, atrapalhando o progresso da nação.