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Formação Continuada em Toxicologia Aplicada a Metais

MÓDULO 3 | AULA 2 Abordagem inicial ao paciente potencialmente intoxicado e exames físicos para identificação de sinais e sintomas clínicos

Tópico 4

Casos e Experiências

Caso Clínico 1: Intoxicação por chumbo por projétil retido (fonte: Alves et al., 2024)

Paciente de 38 anos, auxiliar de serviços gerais, foi admitida com dor abdominal em cólica, náuseas, vômitos e constipação há dois meses. O histórico incluía anemia crônica, cefaleia e retenção de projétil no pé direito após ferimento por arma de fogo 17 anos antes. Durante a internação, apresentou piora da dor, alterações neuropsiquiátricas (irritabilidade e lapsos de memória) e crises convulsivas recorrentes, necessitando intubação e sedação. No exame físico, destacavam-se dor abdominal difusa e sensibilidade no pé direito, com edema local. Hemograma evidenciou anemia intensa com pontilhados basofílicos, e a dosagem sérica de chumbo estava elevada (53,2 mcg/dL). Radiografias mostraram múltiplos fragmentos de projétil em tecidos moles e ossos do pé. Diante da impossibilidade de iniciar terapia quelante imediata, realizou-se desbridamento cirúrgico com remoção parcial dos fragmentos, preservando o pé.

A paciente permaneceu três semanas na UTI, com desfecho favorável, apresentando melhora dos sintomas gastrointestinais e controle das crises convulsivas, embora tenham persistido lapsos de memória e lentificação do pensamento. Recebeu alta com terapia anticonvulsivante de manutenção e seguimento neurológico ambulatorial, permanecendo em risco de exposição crônica devido aos fragmentos remanescentes.

Este caso reforça a importância de colher os dados clínicos pregressos do paciente e de tomar medidas efetivas baseadas no exame clínico e alterações laboratoriais.

Caso Clínico 2: Intoxicação por arsênio em bolo no Rio Grande do Sul

Em dezembro de 2024, três pessoas faleceram e uma ficou gravemente hospitalizada em Torres (RS) após consumir um bolo preparado com farinha contaminada por arsênio. O Instituto Geral de Perícias (IGP) confirmou a presença do metal, detectando níveis no sangue das vítimas 20 a 60 vezes acima do considerado tóxico, além de arsênio na urina. A investigação revelou que a farinha continha 65 g de arsênio por quilograma, cerca de 2.700 vezes acima do normal. A autora do envenenamento foi presa e indiciada por homicídio triplamente qualificado e tentativa de homicídio.

O caso evoluiu com óbito da maioria das vítimas, enquanto a sobrevivente permaneceu em situação clínica crítica. Em situações assim, é fundamental o rápido encaminhamento ao hospital, com atendimento inicial voltado à estabilização das funções vitais segundo o protocolo ABCDE, seguido da coleta de informações sobre a exposição, presença de outras vítimas e histórico do episódio, especialmente se o paciente estiver inconsciente. Deve-se observar sinais como náuseas, vômitos, diarreia profusa, dor abdominal em cólica, fraqueza, hipotensão, desidratação e alterações cardiovasculares ou neurológicas. A confirmação da intoxicação e o acompanhamento do quadro podem ser feitos por meio da dosagem sérica e urinária de arsênio, além do monitoramento da função renal, hepática e eletrólitos. Quando indicado, agentes quelantes, como DMSA ou EDTA, podem ser utilizados conforme a gravidade e protocolos clínicos. Este caso exemplifica a aplicação prática dos conceitos do módulo, reforçando a importância do reconhecimento precoce, do manejo estruturado e do acompanhamento contínuo para prevenir complicações graves.