read_more

Formação Continuada em Toxicologia Aplicada a Metais

MÓDULO 3 | AULA 2 Abordagem inicial ao paciente potencialmente intoxicado e exames físicos para identificação de sinais e sintomas clínicos

Tópico 3

Metais de Relevância em Saúde Pública: Epidemiologia, Manifestações e Manejo Clínico

Após a abordagem geral do paciente intoxicado e a avaliação sistêmica inicial, é fundamental direcionar a atenção para os metais individualmente, considerando suas características toxicológicas, vias de exposição predominantes e manifestações clínicas mais frequentes.

Cada metal apresenta padrões específicos de toxicidade, que determinam tanto os sinais clínicos esperados quanto os exames laboratoriais e físicos mais apropriados para identificação e monitoramento da intoxicação.

A integração entre história de exposição, exame físico detalhado e exames laboratoriais direcionados é essencial para um diagnóstico preciso e para a escolha de medidas terapêuticas seguras e eficazes.

A terapia quelante pode ser indicada, além das medidas de suporte clínico, em casos específicos de intoxicação por metais, com o objetivo de se ligar aos íons metálicos circulantes e facilitar sua eliminação do organismo.

EDTA (ácido etilenodiaminotetracético)
  • Indicado principalmente em intoxicações por chumbo.
  • Atua formando complexos solúveis com os íons metálicos.
  • Esses complexos são eliminados pela urina.
  • Uso geralmente realizado em ambiente hospitalar, com monitoramento clínico e laboratorial.
DMSA (ácido dimercaptossuccínico)
  • Administrado por via oral.
  • Capaz de se ligar a metais como chumbo, mercúrio e arsênio.
  • Permite a excreção renal dos metais quelados.
  • Frequentemente utilizado em quadros leves a moderados, conforme avaliação médica.
BAL (dimercaprol)
  • Indicado em intoxicações graves por arsênio, mercúrio, ouro e chumbo.
  • Administrado por via intramuscular.
  • Uso restrito a ambiente hospitalar, devido ao potencial de efeitos adversos.
  • Geralmente reservado para casos mais severos ou quando outros quelantes não são adequados.
Deferoxamina
  • Quelante específico para ferro.
  • Forma complexos estáveis com o ferro circulante.
  • Os complexos são eliminados principalmente pela urina.
  • Indicada em casos de sobrecarga ou intoxicação por ferro, sob supervisão especializada.

A escolha do agente quelante depende do tipo de metal envolvido, da gravidade do quadro clínico e das condições individuais do paciente, sendo sempre realizada em ambiente hospitalar e sob supervisão especializada.

A seguir, serão apresentados os principais metais relacionados a quadros de intoxicação, com suas manifestações clínicas e condutas terapêuticas específicas:

O chumbo é um metal amplamente distribuído no ambiente, com intoxicações crônicas relatadas principalmente em crianças expostas a tintas antigas ou solos contaminados, e em trabalhadores de fundições, reciclagem de baterias e indústrias metalúrgicas. As principais espécies químicas incluem Pb0 (metal), Pb2+ (inorgânico, como acetato e sulfato de chumbo). Absorvido principalmente via gastrointestinal e respiratória, distribui-se para ossos, dentes, fígado e rins, com meia-vida longa, especialmente no tecido ósseo. Interfere na síntese de heme, função enzimática e transmissão neuromuscular. Clinicamente, os achados incluem cólica saturnina com dor abdominal difusa à palpação, anemia microcítica com palidez cutaneomucosa e presença da linha de Burton na gengiva. O exame neurológico pode revelar neuropatia periférica, manifestada por fraqueza de extensores de punho e tornozelos, além de alterações cognitivas em crianças, como déficit de atenção e irritabilidade. O diagnóstico combina dosagem de chumbo sanguíneo, coproporfirinas urinárias e exames hematológicos, e o tratamento inclui remoção da fonte, suporte clínico e, quando indicado, terapia quelante com EDTA ou DMSA.

O mercúrio pode estar presente como Hg0 (elementar), Hg2+ (inorgânico) e CH₃Hg+ (orgânico, metilmercúrio), cada forma com perfil toxicológico distinto. Exposições ocorrem em garimpo, laboratórios, indústrias e consumo de peixes contaminados. A absorção depende da espécie: Hg0 via respiratória, enquanto Hg²⁺ e metilmercúrio são absorvidos pelo trato gastrointestinal, com distribuição rápida do metilmercúrio para o sistema nervoso central e rins. Todos os tipos podem induzir estresse oxidativo, dano mitocondrial e disfunção enzimática, mas o metilmercúrio se destaca pela capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica e a placenta, aumentando o risco de neurotoxicidade. No exame físico, podem ser identificados tremores finos de extremidades que evoluem para tremores grosseiros em casos avançados, gengivite com sialorreia, gosto metálico e eritema acrodínico em crianças. Além disso, sinais neurocomportamentais específicos, como irritabilidade, insônia, déficit de memória e alterações de humor, caracterizam o chamado erethismus mercurialis. O diagnóstico das diferentes formas de mercúrio envolve principalmente a história de exposição, considerando a via e a duração do contato, e a avaliação laboratorial. O Hg0 é melhor avaliado por níveis sanguíneos em exposições agudas e por urina em casos crônicos; o Hg2+ é monitorado principalmente pela urina, refletindo a carga renal; já o metilmercúrio é detectado em sangue e cabelo, refletindo a exposição crônica por ingestão alimentar. Exames complementares podem incluir avaliação neurológica e função renal, dependendo da espécie química envolvida. O tratamento envolve eliminação da fonte, suporte clínico e terapia quelante (DMSA ou dimercaprol) quando indicado.

Embora essencial, o ferro pode causar toxicidade quando em excesso, principalmente por overdose acidental de suplementos (Fe2+ ou Fe3+) em crianças ou pacientes com distúrbios de armazenamento. Absorvido pelo trato gastrointestinal, acumula-se em fígado, coração e pâncreas, induzindo estresse oxidativo, dano celular hepático e necrose tecidual. A intoxicação aguda, frequentemente observada em crianças após ingestão acidental de comprimidos, provoca dor abdominal, náuseas, vômitos, diarreia e hemorragia gastrointestinal, que podem ser evidenciadas pela presença de sangue nas fezes. Em casos graves, surgem sinais de choque, como hipotensão, taquicardia e pele fria, além de hepatomegalia e dor no hipocôndrio direito. Já nas intoxicações crônicas, o excesso de ferro leva a depósito progressivo em órgãos, resultando em insuficiência hepática, diabetes e cardiomiopatia. O diagnóstico é baseado em dosagem sérica de ferro, ferritina e saturação de transferrina. O tratamento inclui remoção da fonte de exposição, suporte clínico intensivo e terapia quelante com deferoxamina em casos graves.

O arsênio pode ser encontrado como As3+ (trivalente) e As5+ (pentavalente), com exposições comuns via água contaminada, alimentos ou atividades industriais. Absorvido via gastrointestinal, distribui-se para fígado, rins, pele e unhas, e interfere na fosforilação oxidativa, regando espécies reativas de oxigênio. Clinicamente, a exposição crônica se manifesta por lesões cutâneas características, incluindo hiperpigmentação em “manchas de gota de chuva” e queratoses palmo-plantares, além de linhas de Mees nas unhas. O exame físico também pode revelar neuropatia periférica, caracterizada por fraqueza muscular distal e diminuição de reflexos. Alterações gastrointestinais, cardiovasculares e respiratórias complementam o quadro, enquanto a intoxicação aguda cursa com dor abdominal intensa, vômitos e diarreia aquosa. O diagnóstico combina história de exposição, arsênio urinário ou em cabelos e unhas, e exames laboratoriais de função hepática e renal. O tratamento envolve remoção da fonte e, quando necessário, terapia quelante com DMSA ou BAL.

O cromo é encontrado principalmente nas formas Cr3+ (trivalente, essencial em pequenas quantidades) e Cr6+ (hexavalente, tóxico e carcinogênico). Exposições ocupacionais ocorrem em indústrias de galvanoplastia, pigmentos, curtumes e soldagem. O Cr6+ é absorvido por via respiratória e gastrointestinal, distribuindo-se principalmente no fígado e rins, enquanto o Cr3+ tem absorção limitada. Toxicodinamicamente, o Cr6+ gera radicais livres e dano oxidativo direto ao DNA. No exame físico de expostos crônicos, é possível observar dermatite de contato, úlceras cutâneas conhecidas como “chancro do cromo” e lesões ulcerativas no septo nasal, que podem evoluir para perfuração. A avaliação respiratória revela tosse, bronquite crônica e dispneia, enquanto exposições prolongadas elevam o risco de câncer de pulmão. O diagnóstico inclui dosagem de cromo urinário e sanguíneo e avaliação clínica de sinais respiratórios e cutâneos, e o tratamento envolve remoção da fonte, cuidados de suporte e desintoxicação local em casos cutâneos.

O cádmio ocorre como Cd2++, presente em baterias, pigmentos e fumos industriais. A principal via de exposição ocupacional é a inalação, mas a ingestão alimentar também pode ocorrer. Distribui-se preferencialmente para rins e fígado, com meia-vida longa, e induz estresse oxidativo e disfunção tubular renal. O exame físico em intoxicações agudas por inalação pode mostrar dispneia, tosse seca e crepitações pulmonares, enquanto nas exposições crônicas surgem sinais de disfunção tubular renal, como edema e proteinúria. O comprometimento ósseo é marcante, com dor generalizada, fragilidade óssea e osteomalácia, quadro observado classicamente na doença Itai-Itai. Além disso, pode haver hipertensão arterial persistente. O diagnóstico combina avaliação clínica, dosagem urinária e sanguínea e exames de função renal e óssea. O tratamento baseia-se principalmente em remoção da fonte de exposição e medidas de suporte, já que a terapia quelante tem uso limitado.

O alumínio é encontrado principalmente como Al3+ em sais e óxidos, presente em água tratada, alimentos processados, panelas e utensílios de cozinha, medicamentos e ambientes industriais. A absorção ocorre principalmente via gastrointestinal, sendo limitada, e o metal se distribui para ossos, fígado e rins. Toxicodinamicamente, o alumínio pode induzir estresse oxidativo, interferência enzimática e acúmulo em tecidos nervosos, especialmente em indivíduos com insuficiência renal. No exame físico, a intoxicação aguda provoca irritação gastrointestinal, com náuseas, vômitos e dor abdominal. A exposição crônica pode levar a sinais neurológicos, incluindo lentificação psicomotora, déficit de memória e alterações cognitivas inespecíficas, além de osteomalácia em casos de acúmulo prolongado. O diagnóstico baseia-se na avaliação da história da exposição, dosagem sérica de alumínio e exames renais, e o tratamento consiste principalmente na remoção da fonte e medidas de suporte, incluindo diálise em casos de acúmulo significativo.

O bário ocorre como BaSO4 (inorgânico insolúvel, seguro) e BaCl2 (solúvel, tóxico), sendo usado em indústrias metalúrgicas, perfuração de poços e produtos químicos. A exposição ocorre principalmente por ingestão de sais solúveis ou inalação de partículas em ambientes ocupacionais. No organismo, o bário interfere na transmissão neuromuscular e na excitabilidade celular, podendo causar alterações cardiovasculares. No exame físico, destacam-se fraqueza muscular progressiva, paralisia flácida, arritmias cardíacas, taquicardia e bloqueios de condução. Sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e diarreia, também são frequentes em exposições agudas. O diagnóstico envolve história de exposição, exames laboratoriais para eletrólitos (potássio, sódio, cálcio e magnésio). O monitoramento cardíaco é importante porque a intoxicação por bário pode provocar hipocalemia (diminuição nos níveis de cálcio sanguíneo), impactando a função muscular e cardíaca.

O níquel pode estar presente como Ni0 (metal), Ni2+ (sais inorgânicos) e compostos organometálicos, encontrado em baterias, ligas metálicas, joias e processos de galvanoplastia. A absorção ocorre principalmente por via respiratória em ambientes industriais, embora a ingestão de alimentos ou contato dérmico também possa ocorrer. O níquel induz estresse oxidativo, alterações enzimáticas e inflamação tecidual. O exame físico pode revelar dermatite de contato alérgica, com eritema, prurido e eczema em áreas de contato com joias ou materiais metálicos. A exposição ocupacional crônica está associada a sintomas respiratórios persistentes, como rinite crônica, tosse e bronquite, além de risco aumentado de asma ocupacional e câncer de pulmão ou cavidade nasal. O diagnóstico combina história ocupacional, exames respiratórios e dosagem de níquel urinário ou sanguíneo, e o tratamento envolve remoção da fonte, medidas de suporte respiratório e dermatológico e monitoramento de efeitos crônicos.

A seguir, apresenta-se uma tabela-resumo (tabela 2) dos principais metais associados a quadros de intoxicação, incluindo suas espécies químicas, manifestações clínicas características e as condutas terapêuticas recomendadas:

Tabela 2 - Tabela-resumo dos principais metais de interesse à saúde pública: manifestações clínicas e condutas terapêuticas:
Metal Principais sinais clínicos / achados físicos Conduta / tratamento principal
Chumbo (Pb) Cólica abdominal, anemia, neuropatia periférica, alterações cognitivas Remoção da fonte, suporte clínico, terapia quelante
Mercúrio (Hg) Tremores, gengivite, eritema acrodínico, erethismus mercurialis Eliminação da fonte, suporte clínico, terapia quelante
Ferro (Fe) Dor abdominal, vômitos, diarreia, hemorragia, choque; crônico: dano hepático e cardiomiopatia Remoção da fonte, suporte clínico, terapia quelante
Arsênio (As) Lesões cutâneas, linhas de Mees, neuropatia periférica, sintomas gastrointestinais Remoção da fonte, terapia quelante quando necessário
Cromo (Cr) Dermatite, úlceras cutâneas, perfuração nasal, tosse, bronquite Remoção da fonte, suporte clínico, desintoxicação local
Cádmio (Cd) Dispneia, tosse, disfunção renal, fragilidade óssea Remoção da fonte, suporte; terapia quelante limitada
Alumínio (Al) Náuseas, vômitos, dor abdominal; crônico: déficit cognitivo, osteomalácia Remoção da fonte, suporte, diálise se necessário
Bário (Ba) Fraqueza muscular, paralisia, arritmias, náuseas, vômitos Remoção da fonte, reposição de potássio, suporte cardíaco
Níquel (Ni) Dermatite de contato, rinite crônica, tosse, bronquite Remoção da fonte, suporte respiratório e dermatológico

Fonte: Autor

O fluxograma a seguir apresenta de forma prática as etapas essenciais no atendimento ao paciente com suspeita de intoxicação por metais.

Fluxograma: abordagem ao paciente potencialmente intoxicado por metais

1
Chegada do paciente / suspeita de intoxicação por metais

Avaliação inicial - protocolo ABCDE:
  • A - Airway (vias aéreas): verificar permeabilidade, edema, secreções.
  • B - Breathing (respiração): frequência, padrão respiratório, dispneia.
  • C - Circulation (circulação): pressão arterial, perfusão, sinais de choque
  • D - Disability (estado neurológico): nível de consciência, convulsões, déficit motor.
  • E - Exposure (exposição): remoção de roupas contaminadas, descontaminação cutânea/ambiental.
2

3
Coleta de anamnese direcionada
  • Profissão e ambiente de trabalho.
  • Histórico de contato com substâncias químicas.
  • Tempo de exposição e uso de EPI.
  • Sintomas iniciais e evolução clínica.

Suspeita de metal específico
  • Chumbo (Pb): neuropatia periférica, anemia, cólica abdominal.
  • Mercúrio (Hg): tremores, alterações cognitivas, glomerulopatias.
  • Ferro (Fe): dor abdominal, vômitos, choque.
  • Arsênio (As): lesões cutâneas, neuropatia, arritmias.
  • Cromo (Cr): dermatite, irritação respiratória, úlceras nasais.
  • Cádmio (Cd): doença renal crônica, osteomalácia.
  • Alumínio (Al): náuseas, alterações neurológicas em insuficiência renal.
  • Bário (Ba): fraqueza muscular, arritmias, diarreia.
  • Níquel (Ni): dermatite, asma ocupacional, irritação respiratória.
4

5
Exames laboratoriais / complementares
  • Dosagem sérica ou urinária do metal suspeito.
  • Função renal e hepática.
  • Hemograma e bioquímica conforme suspeita.
  • Exames neurológicos ou respiratórios, se indicado.

Conduta e tratamento
  • Remoção da fonte de exposição.
  • Suporte clínico (fluídico, respiratório, cardiovascular).
  • Terapia quelante específica quando indicada (EDTA, DMSA, BAL, deferoxamina).
  • Monitoramento de efeitos agudos e crônico.
6

7
Acompanhamento
  • Avaliação de complicações tardias.
  • Educação sobre prevenção ocupacional e ambiental.
  • Reavaliação laboratorial periódica.

Fonte: Autor