MÓDULO 2 | AULA 3 Toxicologia dos medicamentos e tabagismo
Efeitos tóxicos do tabaco
De forma ampla, tanto o tabagismo ativo quanto o passivo causam danos ao corpo humano.
A nicotina é a principal responsável pelos efeitos tóxicos relacionados às doenças cardíacas, pois tem a capacidade de penetrar nos alvéolos pulmonares, onde ocorre a troca gasosa com a corrente sanguínea, danificando as paredes dos vasos sanguíneos.
Esses efeitos podem resultar em complicações, como inflamação das artérias, aterosclerose, arritmia, hipertensão e até infarto. Além disso, a nicotina facilita a formação de coágulos no sangue, aumentando o risco de acidente vascular cerebral (AVC).
A nicotina se liga aos receptores colinérgicos nicotínicos (nAChR), presentes naturalmente no corpo e ativados pela acetilcolina. Esses receptores estão nos gânglios autonômicos, que fazem a conexão entre o sistema nervoso central (SNC) e outros tecidos, além de estarem envolvidos em processos cognitivos como atenção, memória e aprendizado. Ao agir como um agonista exógeno, a nicotina imita a acetilcolina e modula a liberação de dopamina, gerando sensações de prazer que contribuem para o vício. O uso contínuo leva à tolerância, com os nAChR se tornando menos responsivos e dependentes da nicotina. A longo prazo, essa dessensibilização pode resultar em efeitos neurotóxicos, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.
A exposição frequente à nicotina desenvolve tolerância farmacodinâmica, reduzindo progressivamente efeitos como tontura, náusea e alterações cardiovasculares, comuns no início do tabagismo. Parte dessa tolerância é perdida durante o sono, fazendo com que o primeiro cigarro do dia cause esses efeitos de forma mais leve. Esse fenômeno está relacionado às alterações nos receptores nAChR, responsáveis por interações no sistema nervoso. Ao atuar como agonista, a substância estimula o sistema de recompensa cerebral, especialmente na área tegmental ventral e no núcleo accumbens. Isso resulta na liberação de dopamina, gerando sensações de prazer e reforçando o quadro de dependência.
Além da nicotina, outros componentes da fumaça, como o monóxido de carbono, reduzem a disponibilidade de oxigênio no sangue, contribuindo para doenças cardíacas, como a doença arterial coronariana e insuficiência cardíaca. Os efeitos sinérgicos entre a nicotina e o monóxido de carbono aumentam a demanda de oxigênio, que é depletada pela ação do monóxido, gerando problemas como trombose coronariana.
Outros efeitos tóxicos do tabagismo estão relacionados principalmente a doenças respiratórias graves como a asma e a bronquite, um tipo de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), assim como o enfisema. Na bronquite crônica, a associação do tabagismo está relacionada principalmente pelo início de um processo inflamatório em decorrência da fumaça, que leva ao aumento da produção de muco nos brônquios, levando à obstrução do fluxo do ar. Já no enfisema, células inflamatórias como neutrófilos e macrófagos destroem as fibras elásticas e geram deposição de tecido fibroso nos alvéolos, reduzindo a elasticidade pulmonar. Com isso, durante a inspiração o ar consegue entrar, mas na expiração os bronquíolos tendem a se fechar antes que todo o ar seja eliminado, criando um mecanismo de válvula que favorece o aprisionamento aéreo. O aumento de pressão leva à sobrecarga nos alvéolos e promove o rompimento dos septos alveolares, formando grandes espaços aéreos que diminuem a área útil de superfície para troca gasosa o que resulta em dificuldade respiratória.
Dentre os efeitos tóxicos mais estudados do tabagismo, destacam-se os tipos de câncer relacionados ao hábito de fumar. Embora a nicotina não seja um carcinógeno direto, o vício em nicotina leva à exposição prolongada à fumaça do tabaco, aumentando o risco de câncer devido aos componentes cancerígenos presentes nela. A imagem ilustra os principais tipos de câncer associados ao tabagismo, tanto da fumaça dos cigarros convencionais quanto do aerossol dos cigarros eletrônicos. Além disso, o tabagismo afeta a saúde reprodutiva de homens e mulheres e está relacionado a malformações congênitas.
Mesmo diante de todos os efeitos tóxicos já citados, a indústria do tabaco possui grande expressão no Brasil. Apesar disso, em estudo produzido pelo INCA no ano de 2025 a proporção entre o lucro e o gasto pelo setor saúde é discrepante, os dados demonstram que a cada R$ 1 de lucro, gasta-se R$ 5 com doenças causadas pelos derivados do produto, o que representa uma perda anual de R$ 153 bilhões para o país. Para combater o tabagismo, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece terapias de cessação, como aconselhamento, adesivos transdérmicos, goma de mascar e medicamentos como bupropiona e vareniclina, com exceção da vareniclina.
Fumantes podem acessar esses serviços nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ao se inscrever no Programa Nacional de Controle do Tabaco (PNCT) (Bocchini, 2022).
Leia a Cartilha do INCA e conheça os dados relacionados ao tabagismo no Brasil.
Nesta aula, foram discutidos os fundamentos da toxicologia dos medicamentos, destacando como dose, via de administração, tempo de exposição e características individuais influenciam os efeitos terapêuticos e tóxicos. A análise da automedicação evidenciou seus riscos à saúde pública, incluindo intoxicações, interações medicamentosas e resistência microbiana. Também foram apresentados os principais fatores farmacocinéticos e farmacodinâmicos que determinam a toxicidade dos fármacos, bem como suas principais classes e mecanismos de ação. No contexto do tabagismo, a aula aprofundou os efeitos tóxicos da nicotina e de outros componentes da fumaça do cigarro e dos DEFs, enfatizando os mecanismos de dependência e os impactos crônicos à saúde. A integração desses conhecimentos reforça a importância do uso racional de medicamentos e das estratégias de prevenção e controle do tabagismo no âmbito do SUS.